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Carga mental

O trabalho invisível de planejar, organizar e antecipar tarefas domésticas e de cuidado, que recai desproporcionalmente sobre as mulheres, exigindo constante atenção e gerenciamento, mesmo quando as tarefas físicas são divididas.

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Definição

A carga mental é o peso do gerenciamento. Enquanto a execução das tarefas domésticas (lavar, passar, cozinhar) é visível e física, a carga mental é cognitiva e invisível: é o ato de lembrar que falta leite, saber o dia da vacina, notar que a roupa da criança está pequena, planejar o cardápio da semana. O conceito ganhou popularidade mundial com a tirinha 'Era só você ter pedido' da ilustradora francesa Emma, que demonstrou como os homens frequentemente se colocam na posição de 'ajudantes' que executam ordens, deixando para a mulher o papel de 'gerente do lar'.

Sociologicamente, o conceito foi desenvolvido pela socióloga francesa Monique Haicault nos anos 80, descrevendo a sobreposição constante de universos profissionais e domésticos na mente da mulher. É um trabalho de bastidor contínuo e exaustivo, que não desliga nem nas horas de lazer, levando a um estado de alerta permanente.

Como funciona

Funciona através da naturalização da mulher como a 'responsável final' pelo bem-estar da família. Mesmo quando o homem divide as tarefas físicas (ex: ele lava a louça), a mulher precisa monitorar se foi feito, ou teve que pedir para que fosse feito ('Era só pedir'). O simples ato de ter que delegar já é um trabalho. Se algo dá errado (falta comida, a criança vai sem lanche), a culpa recai socialmente sobre a mulher, não sobre o homem. A frase 'ele ajuda muito em casa' revela essa estrutura: quem ajuda é auxiliar, não co-responsável.

Exemplos

  • O homem troca a fralda do bebê, mas é a mulher quem percebe que as fraldas estão acabando e precisa lembrar de comprar mais.

  • Durante uma reunião de trabalho importante, a mulher está mentalmente preocupada se o filho levou o material escolar correto, enquanto o pai não compartilha dessa preocupação.

  • O parceiro pergunta 'o que tem para o jantar?', transferindo para a mulher a responsabilidade de decidir e planejar a refeição.

Quem é afetado

Afeta predominantemente mulheres cisgênero em relacionamentos heterossexuais, mas também mulheres solteiras que cuidam de pais idosos ou familiares. Mães são o grupo mais atingido ('Burnout materno'). Mulheres negras e periféricas sofrem uma carga mental agravada pela escassez de recursos e pela necessidade de gerenciar a sobrevivência física da família em ambientes hostis (violência, falta de saneamento).

Por que é invisível

É invisível porque é imaterial. Ninguém vê o pensamento 'preciso agendar o dentista'. Além disso, é socialmente esperado como instinto feminino ou 'amor', romantizando-se o sacrifício. A sociedade valoriza o trabalho produtivo (que gera salário) e ignora o trabalho reprodutivo e de gestão, fundamental para que o sistema capitalista funcione.

Efeitos

Os efeitos incluem exaustão crônica, estresse, ansiedade, insônia, perda de libido e sensação de inadequação constante. Profissionalmente, a carga mental ocupa 'banda de processamento' no cérebro da mulher, prejudicando seu foco e avanço na carreira ('Teto de vidro'). No relacionamento, gera ressentimento, brigas e distanciamento afetivo, pois a mulher assume um papel maternal/gerencial em relação ao parceiro.

Autores brasileiros

  • Valeska Zanello
  • Vera Iaconelli
  • Manuela Xavier

Autores estrangeiros

  • Emma (Emma Clit)
  • Monique Haicault
  • Silvia Federici

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