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Discriminação em saúde por cor

Tratamento médico desigual e negligente dispensado a pacientes negros, baseado em estereótipos racistas sobre resistência à dor e comportamento, resultando em diagnósticos tardios e maior mortalidade.

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Definição

A discriminação em saúde por cor não é apenas a recusa de atendimento, mas um conjunto de práticas e negligências sutis (ou explícitas) que resultam em desfechos clínicos piores para a população negra. No Brasil, isso é evidenciado estatisticamente: mulheres negras recebem menos anestesia no parto normal do que mulheres brancas, têm maior risco de morte materna e sofrem mais violência obstétrica. Esse fenômeno é enraizado no racismo científico do século XIX, que pregava falsamente que corpos negros seriam biologicamente mais resistentes à dor e "mais fortes", justificando, na época, a escravidão, e hoje, a negligência médica.

O conceito abrange desde a falta de escuta qualificada ("o médico nem olhou na minha cara") até a demora proposital no atendimento e diagnósticos imprecisos baseados em preconceitos (como assumir que um paciente negro é alcoólatra ou usuário de drogas antes de investigar outras causas clínicas). Autoras como Jurema Werneck apontam que o racismo institucional no SUS atua como uma barreira de acesso, onde a "pele alvo" determina quem vive e quem morre nas filas de emergência.

Como funciona

Funciona através de vieses implícitos e mitos médicos que, embora não ensinados explicitamente nas faculdades modernas, são perpetuados na cultura hospitalar. Um exemplo clássico é o mito de que "mulher negra é forte e aguenta a dor do parto", levando equipes de saúde a ignorarem pedidos de analgesia. Outro mecanismo é a subestimação da gravidade dos sintomas relatados por pacientes negros, rotulados muitas vezes como "exagerados" ou "dramáticos".

Além disso, doenças prevalentes na população negra (como Anemia Falciforme e Hipertensão) muitas vezes recebem menos atenção e financiamento para pesquisa do que doenças que afetam majoritariamente brancos. A discriminação também opera na comunicação: o uso de linguagem técnica excludente ou a falta de paciência para explicar procedimentos, assumindo que o paciente negro "não vai entender mesmo".

Exemplos

  • Violência Obstétrica Racial: Negar anestesia no parto normal ou realizar episiotomia (corte no períneo) sem consentimento e sem anestesia local, sob a justificativa de que a paciente "aguenta".

  • Subdiagnóstico de Dor: Prescrever analgésicos mais fracos (dipirona) para pacientes negros em pós-operatório ou emergência, enquanto pacientes brancos com o mesmo quadro recebem opioides.

  • Estereótipos em Emergências: Assumir que um jovem negro chegando desacordado na emergência sofreu overdose ou está embriagado, atrasando exames para AVC ou coma diabético.

  • Negligência Dermatológica: Falta de preparo médico para diagnosticar doenças de pele (como câncer ou manchas de COVID-19) em peles negras, levando a diagnósticos tardios.

Quem é afetado

A população negra em geral, mas com um recorte de gênero brutal: mulheres negras são as principais vítimas. Dados do Ministério da Saúde e estudos da Fiocruz confirmam que a mortalidade materna é desproporcionalmente maior entre negras. Crianças negras também sofrem com taxas menores de consultas pré-natais completas por parte de suas mães (devido a barreiras de acesso) e maior mortalidade neonatal.

Por que é invisível

É invisível porque é naturalizado como "falta de recursos" ou "acaso clínico". Quando uma mulher negra morre no parto, a culpa é frequentemente atribuída à sua saúde prévia ("ela já tinha pressão alta") e não à demora no atendimento que poderia ter controlado a crise hipertensiva. O racismo é camuflado sob a autoridade técnica do médico ("eu sei o que é melhor"), tornando difícil para a vítima provar que o tratamento teria sido diferente se ela fosse branca. A falta de letramento racial dos profissionais de saúde impede que eles reconheçam suas próprias atitudes como discriminatórias.

Efeitos

Os efeitos são letais. Ocorre a redução da expectativa de vida da população negra, o aumento da mortalidade infantil e materna, e a desconfiança generalizada no sistema de saúde, o que leva pacientes a evitarem buscar ajuda médica até que o quadro seja crítico. Psicologicamente, gera o estresse crônico do "cuidado alerta", onde o paciente negro sente que precisa estar sempre vigilante para não ser negligenciado, o que, ironicamente, piora quadros de hipertensão e saúde mental.

Autores brasileiros

  • Jurema Werneck
  • Fernanda Lopes
  • Sueli Carneiro
  • Lélia Gonzalez

Autores estrangeiros

  • Dorothy Roberts
  • Harriet Washington
  • Dayna Bowen Matthew

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