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Gaslighting médico

Prática onde profissionais de saúde desconsideram ou invalidam queixas de pacientes, atribuindo-as a fatores psicológicos sem investigação adequada, afetando especialmente mulheres.

SaúdeGêneroViolência psicológicaDireitos humanosMedicina

Definição

O gaslighting médico é uma prática em que profissionais de saúde minimizam, desconsideram ou invalidam as queixas e sintomas relatados por pacientes, atribuindo-os sem investigação adequada a fatores psicológicos, "estresse", "frescura" ou causas imaginárias. Trata-se de uma forma de violência institucional que atinge desproporcionalmente mulheres e grupos marginalizados, onde a autoridade médica é usada para fazer o paciente duvidar de sua própria percepção física e nível de dor.

No Brasil, a psicóloga Valeska Zanello e diversas pesquisadoras da área da saúde da mulher discutem como esse fenômeno está enraizado no machismo estrutural da medicina. O corpo feminino é historicamente patologizado e lido como "instável" ou "emocional", o que leva médicos a diagnosticarem precocemente mulheres com ansiedade ou depressão quando, na verdade, elas apresentam sintomas físicos reais de doenças graves ou crônicas, como endometriose ou doenças autoimunes.

Como funciona

A dinâmica funciona através da desqualificação da fala do paciente. Quando uma mulher relata uma dor intensa, é comum ouvir que "é apenas ansiedade" ou que ela é "muito sensível". Esse processo de silenciamento impede o pedido de exames diagnósticos essenciais, atrasando tratamentos e agravando quadros de saúde. O profissional utiliza o seu "saber técnico" como um escudo para não ouvir a experiência subjetiva do corpo do outro, estabelecendo uma relação de poder desigual e abusiva.

O gaslighting médico também se manifesta na interrupção constante da fala do paciente e no desvio de foco do sintoma físico para a vida emocional. Ao transformar uma queixa biológica em uma "questão de nervos", o médico desonera-se da investigação técnica e coloca sobre o paciente a responsabilidade por sua própria condição de saúde, sugerindo que a dor cessará se "ela relaxar" ou "mudar de atitude".

Exemplos

  • Atribuir dor cardíaca à ansiedade: Uma mulher com sintomas de infarto ser mandada para casa com um calmante sob o argumento de que está tendo uma "crise de nervos".

  • Omitir investigação de endometriose: Tratar cólicas incapacitantes como "normal de mulher" por anos, sem pedir os exames de imagem específicos que identificariam a doença.

  • Focar apenas no peso: Dizer a um paciente gordo que todas as suas dores se resolverão com dieta, ignorando sintomas de uma infecção ou problema estrutural não relacionado à obesidade.

  • Minimizar efeitos colaterais de anticoncepcionais: Profissionais que ignoram queixas de perda de libido, depressão ou dores vasculares em usuárias de hormônios, tratando as reclamações como "falta de adaptação psicológica".

Quem é afetado

As principais afetadas são as mulheres (especialmente mulheres negras, que sofrem adicionalmente com o mito da resistência à dor), pessoas gordas (que recebem recomendações de perda de peso para qualquer sintoma, ocultando doenças graves) e pessoas idosas. O fenômeno também atinge fortemente pacientes com doenças raras ou invisíveis (como fibromialgia e síndrome da fadiga crônica), cujos sintomas não aparecem em exames de sangue tradicionais e são rapidamente descartados como "psicossomáticos".

O impacto é devastador para a segurança do paciente, pois leva a diagnósticos tardios de cânceres, doenças cardíacas e complicações pós-operatórias. Além do dano físico, a experiência de ser invalidado por alguém em quem se deveria confiar gera um trauma psicológico profundo, fazendo com que o paciente evite buscar ajuda médica no futuro, mesmo em casos de emergência.

Por que é invisível

O gaslighting médico é invisibilizado pela aura de infalibilidade e heroísmo que envolve a profissão médica na sociedade. Questionar o diagnóstico de um doutor é frequentemente visto como arrogância ou "falta de respeito" por parte do paciente. A estrutura de poder nos consultórios incentiva a submissão, e o tempo escasso das consultas (especialmente no sistema público ou em convênios de massa) favorece julgamentos apressados baseados em estereótipos em vez de escuta clínica.

Além disso, o fenômeno é mascarado pela falta de dados e notificações. Como a prática não deixa marcas físicas imediatas (além da ausência de diagnóstico), ela raramente é denunciada aos conselhos de classe. A própria vítima, após ouvir de vários especialistas que "não tem nada", passa a internalizar a mentira, acreditando que a dor é fruto de sua imaginação, o que completa o ciclo do gaslighting e mantém a prática impune.

Efeitos

  • Diagnósticos tardios e fatais: Perda da janela de tratamento para doenças que poderiam ser curadas se as queixas iniciais tivessem sido levadas a sério.
  • Adoecimento mental e trauma: Desenvolvimento de ansiedade médica, episódios de pânico antes de consultas e depressão por sentir-se desamparado.
  • Intervenções desnecessárias: Uso abusivo de psicofármacos (antidepressivos e ansiolíticos) em pacientes que precisariam de outros tipos de intervenção física.
  • Vulnerabilidade financeira: O paciente gasta recursos em consultas intermináveis e tratamentos errados até encontrar um profissional que faça a escuta correta.

Autores brasileiros

  • Valeska Zanello

Autores estrangeiros

  • Kate Manne

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