Gerontofobia
Medo irracional e aversão ao envelhecimento e às pessoas idosas, tratando-as como fardo social.
Definição
A gerontofobia é o medo irracional, a aversão ou o preconceito direcionado ao envelhecimento e às pessoas idosas. Diferente do etarismo (ou ageísmo), que abrange discriminações contra qualquer faixa etária, a gerontofobia foca especificamente na rejeição ao processo de envelhecer, tratando-o como um estado de decadência, obsolescência e perda de valor social. É uma patologia social que projeta no idoso o medo que o indivíduo sente da própria finitude, da fragilidade biológica e da perda de autonomia em uma sociedade que supervaloriza a juventude e a produtividade incessante.
No Brasil, a antropóloga Guita Debert é uma referência central, analisando como a "invenção da terceira idade" muitas vezes mascara a gerontofobia ao exigir que o idoso permaneça "jovem" e ativo para ser aceito, o que ela chama de reprivatização do envelhecimento. Internacionalmente, o sociólogo Erdman Palmore descreve como a gerontofobia se manifesta em piadas, estereótipos midiáticos e na exclusão do idoso dos espaços de decisão. A lógica gerontofóbica transforma o envelhecer — que é uma conquista civilizatória e biológica — em um fardo econômico e social.
Como funciona
A dinâmica funciona por meio da marginalização e da infantilização. O idoso é gradualmente retirado dos espaços de produtividade e de fala, sendo tratado como alguém que "já viveu o seu tempo" ou que não tem capacidade de compreender as novas tecnologias e dinâmicas sociais. O mecanismo opera também na esfera privada, onde a autonomia do idoso sobre suas finanças, moradia e desejos é cerceada por familiares sob o pretexto de cuidado, mas que na verdade reflete o desejo de silenciar a presença do velho que incomoda a estética e o ritmo da casa.
O mecanismo utiliza o isolamento institucional. Cidades são projetadas para corpos ágeis, com semáforos de tempo curto e calçadas irregulares que confinam o idoso em casa. No mercado de trabalho, a gerontofobia aparece na barreira de contratação para pessoas acima de 50 anos, baseada no falso mito de que o profissional mais velho é menos adaptável ou mais custoso. Essa exclusão sistêmica gera um ciclo de pobreza e invisibilidade que reforça o estereótipo do idoso como um ser puramente dependente do Estado ou da família.
Exemplos
A exclusão digital compulsória: Bancos e serviços públicos que exigem reconhecimento facial ou aplicativos complexos sem oferecer treinamento ou alternativas presenciais acessíveis para idosos.
O palpite sobre a vestimenta: Criticar uma pessoa idosa por usar roupas coloridas ou curtas, alegando que ela "não tem mais idade para isso", como se o corpo velho perdesse o direito à expressão estética.
A negligência no luto: Tratar a morte de uma pessoa idosa como algo "natural" e o sofrimento da família como "esperado", minimizando a perda e deslegitimando a dor da ausência daquela individualidade única.
A demência como adjetivo pejorativo: Chamar qualquer erro de memória ou lentidão de raciocínio de "esclerose" ou "senilidade" para invalidar a opinião política ou o desejo de um idoso em uma discussão familiar.
Quem é afetado
As pessoas idosas são as vítimas diretas, sofrendo com a solidão, a depressão e a perda de direitos fundamentais. Mulheres são afetadas de forma mais agressiva devido à intersecção com o machismo, que impõe uma pressão estética de juventude eterna muito mais severa para o gênero feminino (o que se chama de "invisibilidade da mulher velha"). O processo de envelhecer para a mulher é lido como perda de capital sexual e social, enquanto para o homem muitas vezes é associado à experiência, revelando o caráter desigual da gerontofobia.
No entanto, em um nível psíquico, todos os indivíduos são afetados, pois a gerontofobia cria um pânico existencial sobre o próprio futuro. Ao odiar o idoso, o jovem odeia a si mesmo em potencial, o que gera o consumo desenfreado de produtos "anti-idade" e a recusa em planejar uma sociedade que acolha todas as fases da vida. A coletividade perde ao desperdiçar o capital intelectual e a memória histórica dos mais velhos, resultando em uma sociedade amnésica e emocionalmente frágil diante da finitude.
Por que é invisível
A gerontofobia é invisibilizada por ser tratada como "lei da natureza" ou "ordem das coisas". Frases como "lugar de velho é em casa" ou "ele já está gagá" são aceitas socialmente sem o mesmo rigor que outras formas de preconceito. A publicidade contribui para essa invisibilidade ao mostrar apenas "idosos de comercial", que são brancos, saudáveis, viajantes e parecem jovens com cabelos pintados, apagando a realidade da velhice real, diversa e, por vezes, dependente de cuidados.
Além disso, a invisibilidade é mantida pela patologização do envelhecimento. A medicina muitas vezes trata sintomas de doenças reais como sendo "da idade", negligenciando tratamentos que poderiam devolver qualidade de vida ao idoso apenas por considerar que o investimento não "vale a pena" para quem tem pouca perspectiva de tempo. Essa desumanização médica é aceita sob o manto da "gestão de recursos", ocultando o desprezo profundo pela vida humana que não produz mais dividendos financeiros imediatos.
Efeitos
- Erosão da saúde mental: Aumento drástico de taxas de suicídio e depressão entre idosos que se sentem descartáveis e sem propósito.
- Pobreza e precarização: Exclusão do mercado de trabalho e baixo valor de aposentadorias que empurram idosos para a miséria ou dependência humilhante.
- Abuso financeiro e físico: A fragilização da autonomia do idoso facilita crimes cometidos por cuidadores e familiares que se apropriam de seus bens.
- Perda de memória histórica: O silenciamento dos idosos corta o fio de transmissão de saberes tradicionais e experiências políticas entre as gerações.
Autores brasileiros
- Guita Debert
Autores estrangeiros
- Erdman Palmore
