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Gordofobia

Estigmatização estrutural de corpos gordos, baseada na falsa premissa de que magreza é sinônimo de saúde e gordura de fracasso moral.

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Definição

A gordofobia é uma forma de preconceito estrutural e sistêmico que desvaloriza, estigmatiza e ridiculariza corpos que não se enquadram no padrão normativo de magreza. Diferente da pressão estética, que afeta a subjetividade da maioria das pessoas, a gordofobia opera na negação de direitos fundamentais, como o acesso à saúde, à dignidade no trabalho e à mobilidade urbana. Trata-se de uma hierarquização de corpos onde a magreza é lida como sinônimo de saúde, controle e sucesso moral, enquanto a gordura é patologizada e associada à preguiça, à negligência e ao fracasso individual, independentemente de evidências clínicas.

No Brasil, a filósofa Malu Jimenez, fundadora dos Estudos do Corpo Gordo no Brasil, define a gordofobia como um dispositivo que produz a exclusão de pessoas gordas dos espaços de cidadania. Pesquisadoras como Agnes Arruda também contribuem ao analisar como a mídia reforça estereótipos que mantêm esses corpos na margem. Internacionalmente, o trabalho de Marilyn Wann e Virgie Tovar é fundamental para compreender a gordofobia como uma ferramenta de controle social que pune a diversidade corporal em favor de uma indústria da magreza que gera lucro através da insegurança e da medicalização.

Como funciona

A dinâmica funciona por meio de três pilares fundamentais que estruturam a exclusão. O primeiro é a patologização automática, onde o corpo gordo é diagnosticado como doente apenas pela visão, sem a realização de exames, processo este que ocorre inclusive dentro de consultórios médicos. O segundo pilar é a moralização do corpo, que transforma uma característica biológica em um traço de caráter. Sob essa lógica, a pessoa gorda é vista como alguém que "não tem força de vontade", o que justifica piadas, agressões verbais e a negação de oportunidades de emprego.

O terceiro pilar é a inacessibilidade física e institucional. O design de espaços públicos e privados — de poltronas de ônibus e aviões a macas hospitalares e catracas — é projetado para um corpo padrão, transformando a ocupação do espaço pela pessoa gorda em um evento de humilhação e desconforto. Esse "design excludente" sinaliza permanentemente que aquele corpo não é bem-vindo na esfera pública. O sistema é mantido por um ciclo de vigilância constante sobre a alimentação e o estilo de vida das pessoas gordas, exercido tanto por estranhos quanto por familiares.

Exemplos

  • A gordofobia médica em exames de rotina: Uma mulher gorda busca um oftalmologista e ouve que sua miopia "melhoraria se ela perdesse peso", ou tem uma pneumonia ignorada sob a recomendação de "caminhadas para emagrecer".

  • A exigência de compra de assento extra: Companhias aéreas que obrigam passageiros gordos a pagar por duas passagens, tratando a diversidade física como um custo adicional e não como uma questão de design inclusivo.

  • O elogio que invalida a identidade: Frases como "você tem um rosto tão lindo, se emagrecesse ficaria perfeita", que sugerem que a beleza e a dignidade humana são incompatíveis com o corpo atual.

  • A inacessibilidade em espaços de lazer: Cadeiras com braços fixos em restaurantes e bares que impedem a acomodação de corpos maiores, forçando a pessoa a se retirar ou passar por constrangimento físico.

Quem é afetado

As pessoas gordas são as vítimas diretas deste sistema, enfrentando barreiras sistemáticas que prejudicam sua saúde mental e física. As mulheres são desproporcionalmente afetadas devido à intersecção com o machismo, que utiliza a magreza como métrica de valor feminino e condição para a empregabilidade e o afeto. Mulheres gordas sofrem uma dupla desvalorização que impacta sua autonomia financeira e seus relacionamentos interpessoais. Pessoas com deficiência que possuem corpos gordos também enfrentam uma sobreposição de barreiras de acessibilidade que as isolam socialmente.

A sociedade como um todo é afetada pelo empobrecimento das relações humanas e pela normalização da crueldade sob o pretexto de cuidado. A gordofobia alimenta a gordofobia internalizada, onde pessoas magras vivem sob o pânico constante de engordar, desenvolvendo transtornos alimentares e uma relação doentia com a comida e o próprio corpo. Além disso, o foco exclusivo no peso como indicador de saúde mascara problemas reais de saúde em pessoas magras e impede que pessoas gordas recebam tratamentos adequados para queixas que não possuem relação com o seu IMC.

Por que é invisível

A gordofobia é invisibilizada por estar camuflada sob o discurso da "preocupação com a saúde". O policiamento do prato alheio e os comentários invasivos sobre o corpo são socialmente aceitos quando apresentados como "conselhos pro seu bem". Essa retórica sanitária despolitiza a violência, impedindo que a vítima denuncie a agressão como preconceito. A mídia contribui para essa invisibilidade ao utilizar pessoas gordas apenas em papéis cômicos ou como exemplos de "antes" em narrativas de transformação, reforçando a ideia de que a vida plena só é possível após o emagrecimento.

Além disso, a invisibilidade é mantida pelo consenso científico datado. O uso de métricas como o IMC (Índice de Massa Corporal), que foi criado no século XIX para populações específicas e não considera a diversidade étnica e biológica, confere um ar de "fato biológico incontestável" ao que é, na verdade, um preconceito social. Como a ciência e a medicina demoram a atualizar suas práticas, a gordofobia médica permanece como uma das mais cruéis e silenciosas, onde a pessoa gorda é culpabilizada por suas doenças e desencorajada a buscar auxílio preventivo pelo trauma do atendimento anterior.

Efeitos

  • Negligência médica e diagnósticos tardios: Profissionais de saúde que atribuem toda e qualquer dor ao peso, deixando de investigar cânceres, doenças autoimunes ou cardíacas em estágios iniciais.
  • Danos psicológicos e transtornos alimentares: Desenvolvimento de anorexia, bulimia e compulsão alimentar decorrentes de dietas restritivas impostas pela pressão social.
  • Exclusão do mercado de trabalho: Candidatos gordos recebem salários menores e têm menos chances de promoção em comparação a colegas de igual competência, mas magros.
  • Isolamento social e evitação de espaços públicos: O medo da humilhação por não caber em assentos ou de sofrer comentários rudes faz com que pessoas gordas deixem de frequentar teatros, cinemas e viagens.

Autores brasileiros

  • Malu Jimenez
  • Agnes Arruda

Autores estrangeiros

  • Marilyn Wann
  • Virgie Tovar

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