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Lesbofobia

Opressão que atinge lésbicas combinando misoginia e homofobia, invisibilizando sua existência e autonomia.

LGBTQIA+MisoginiaGênero e sexualidadeDireitos humanosViolência de gênero

Definição

A lesbofobia é uma forma específica de preconceito, discriminação e violência dirigida a mulheres lésbicas (ou percebidas como tal). Embora compartilhe elementos com a homofobia geral, a lesbofobia possui uma dinâmica distinta por ser a interseção entre o ódio à orientação sexual e o sexismo. Ela não ataca apenas o desejo por pessoas do mesmo sexo, mas desafia a própria autonomia da mulher ao romper com o papel social de objeto do desejo masculino e provedora de cuidados para homens.

No Brasil, a pesquisadora Valeska Zanello discute como a lesbofobia opera na desqualificação da mulher que se retira das "prateleiras do mercado amoroso masculino". Além do ódio direto, ela se manifesta na invisibilidade e na tentativa constante de "corrigir" ou "normalizar" a sexualidade feminina através de violências simbólicas e físicas, tratando a lesbianidade como uma fase, uma patologia ou uma falha de caráter.

Como funciona

A lesbofobia funciona através de mecanismos de silenciamento e hipersexualização. Por um lado, há o apagamento das relações lésbicas, que são tratadas como amizades intensas, escondendo sua natureza política e afetiva. Por outro lado, há a fetichização masculina, que só aceita a lesbianidade enquanto espetáculo para o prazer do homem, invalidando qualquer relação que não seja palatável ao olhar patriarcal.

Nas instituições, funciona através da exclusão e do assédio. Mulheres lésbicas, especialmente as que desafiam as normas de vestimenta e comportamento feminino (como as lésbicas butch), são frequentemente alvo de violência em espaços públicos, sofrendo desde agressões verbais até o "estupro corretivo", uma prática hedionda baseada na crença de que a orientação sexual pode ser alterada através da violência sexual.

Exemplos

  • Invalidação familiar: Uma mãe que se recusa a chamar a parceira da filha de namorada, referindo-se a ela sempre como "a amiga" ou "a colega", mesmo após anos de relacionamento.

  • Assédio no trabalho: Colegas homens que fazem piadas de teor sexual ou perguntam "quem é o homem da relação", buscando enquadrar a dinâmica lésbica em moldes heterossexuais.

  • Violência em banheiros públicos: Impedir a entrada ou expulsar uma mulher com aparência masculinizada de um banheiro feminino, alegando que ela "está no lugar errado".

  • O mito da cura: Sugestões agressivas de que a mulher deveria procurar terapia ou ajuda religiosa para "resolver" sua sexualidade, tratando sua identidade como um problema a ser curado.

Quem é afetado

As afetadas são mulheres lésbicas, bissexuais e todas aquelas cuja expressão de gênero não atenda às expectativas heteronormativas. O impacto é agravado pela raça: mulheres lésbicas negras sofrem uma sobreposição de opressões, sendo alvo de violências mais letais e tendo menor acesso à rede de proteção estatal e ao suporte comunitário.

Também são afetadas as mulheres jovens em fase de descoberta, que enfrentam isolamento familiar e bullying escolar, muitas vezes sendo expulsas de casa ou forçadas a esconderem quem são para sobreviverem economicamente.

Por que é invisível

A lesbofobia é invisibilizada pela própria estrutura machista que não concebe a mulher como um sujeito de desejo autônomo. Muitas vezes, a violência contra lésbicas é registrada apenas como "briga familiar" ou "crime comum", omitindo-se a motivação de ódio à orientação sexual. A sociedade tende a minimizar o problema, tratando-o como algo menos grave do que a homofobia contra homens gays, que é mais visível midiaticamente.

A invisibilidade também ocorre através da negação. Frases como "é só uma fase" ou "você ainda não conheceu o homem certo" são formas de lesbofobia cordial que deslegitimizam a identidade da mulher, tratando sua escolha de vida como uma lacuna ou um erro de percurso a ser preenchido pela presença masculina.

Efeitos

  • Adoecimento mental: Altos índices de ansiedade, depressão e automutilação entre mulheres lésbicas devido à pressão do armário e à hostilidade social constante.
  • Insegurança pública: Restrição do direito de transitar livremente e expressar afeto em locais públicos, gerando um estado de vigilância constante e medo de ataques físicos.
  • Vulnerabilidade econômica: Dificuldade de acesso ao mercado de trabalho para mulheres que não performam a feminilidade padrão, resultando em subempregos e precarização financeira.
  • Isolamento familiar: Perda de laços de apoio fundamentais e rede de segurança emocional, muitas vezes deixando a mulher sem teto ou sem recursos básicos de sobrevivência.

Autores brasileiros

  • Miriam Martinho

Autores estrangeiros

  • Adrienne Rich

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