Racismo religioso
Ataques sistemáticos contra terreiros e símbolos de matriz africana, buscando o apagamento cultural e espiritual negro.
Definição
Racismo religioso é o termo cunhado e defendido por intelectuais como Sidnei Nogueira para descrever o conjunto de práticas violentas, sistemáticas e estruturais dirigidas contra as religiões de matriz africana (Candomblé, Umbanda, Tambor de Mina, etc.). Diferente do conceito genérico de "intolerância religiosa" — que sugere apenas um conflito de opiniões ou crenças —, o racismo religioso explicita que o alvo desses ataques não é a fé em si, mas a origem africana e negra dessas tradições.
O fenômeno é uma extensão do racismo estrutural que opera através da demonização de saberes, divindades (Orixás, Inkices, Voduns) e rituais negros, tratando-os como malignos, primitivos ou perigosos. É um projeto colonial de apagamento cultural que visa destruir os laços comunitários e identitários preservados nos terreiros, locais históricos de resistência negra no Brasil.
Como funciona
Funciona através de uma aliança perversa entre fundamentalismo religioso (principalmente neopentecostal), legislação omissa e segurança pública conivente. Opera em discursos que associam elementos sagrados afro-brasileiros ao "diabo" ou ao "mal", legitimando agressões físicas e simbólicas. Na prática, manifesta-se desde a proibição de uso de vestimentas brancas e fios de conta (guias) em ambientes escolares e de trabalho, até a invasão, depredação e incêndio de terreiros por grupos fundamentalistas ou milícias religiosas.
Funciona também na esfera legislativa, através de leis de zoneamento que dificultam o funcionamento de terreiros (alegando "perturbação do sossego" pelo uso de atabaques), enquanto igrejas com potentes sistemas de som operam livremente. Midiaticamente, programas de TV sensacionalistas frequentemente expõem rituais de forma distorcida para gerar pânico moral e ódio.
Exemplos
Invasões de Terreiros (Traficantes de Jesus): O fenômeno no Rio de Janeiro onde traficantes convertidos ao neopentecostalismo expulsam lideranças religiosas de favelas e destroem seus templos sob a justificativa de "limpeza espiritual" do território.
Caso Mãe Bernadete: O assassinato da Iyalorixá e líder quilombola Mãe Bernadete em 2023, na Bahia, que expôs a interseção entre racismo religioso, disputa de terras e violência contra lideranças negras.
Proibição de Rituais em Espaços Públicos: Tentativas legislativas ou ações policiais que impedem oferendas em praias, cachoeiras e encruzilhadas, sob o pretexto de "sujeira", enquanto outros eventos religiosos ocupam ruas inteiras sem impedimentos.
Discurso de Ódio em Redes Sociais: A viralização de vídeos demonizando Entidades (Exus e Pombagiras), gerando campanhas de ódio e ameaças de morte a sacerdotes que expõem sua fé online.
Quem é afetado
As vítimas diretas são os povos de terreiro: babalorixás, iyalorixás, frequentadores e comunidades afrorreligiosas. Dados de 2024 do Ministério dos Direitos Humanos mostram que, embora representem uma pequena parcela da população religiosa declarada, as religiões de matriz africana são o alvo de mais de 90% das denúncias de ataque a templos no Brasil. Isso demonstra que não se trata de uma "intolerância" generalizada, mas de uma perseguição focada.
Indiretamente, toda a população negra é afetada, pois o ataque à religiosidade afro é um ataque à ancestralidade, à memória e à cultura negra como um todo, independente de o indivíduo ser praticante ou não.
Por que é invisível
O racismo religioso é muitas vezes invisibilizado sob a alcunha de "intolerância religiosa". Esse eufemismo sugere uma simetria que não existe: não vemos terreiros invadindo igrejas cristãs para quebrar imagens, mas o inverso é uma constante. A mídia muitas vezes reporta esses crimes como "briga de vizinhos" ou "vandalismo", removendo a motivação racial do crime.
Além disso, há um silenciamento institucional: muitos delegados se recusam a registrar a ocorrência como racismo (Lei 7.716/89), tipificando apenas como injúria ou dano ao patrimônio, o que diminui a gravidade estatística do problema e impede políticas públicas mais eficazes. A naturalização da demonização ("chuta que é macumba") no cotidiano brasileiro também faz com que a violência simbólica passe despercebida.
Efeitos
Os efeitos vão desde o trauma psicológico individual de ter seu sagrado violado até o desaparecimento de comunidades inteiras. O medo faz com que muitos terreiros deixem de tocar seus atabaques ou realizem seus cultos em segredo, retornando a uma clandestinidade similar à do período colonial.
Há também o genocídio cultural: crianças e jovens de famílias de terreiro sofrem bullying severo nas escolas, sendo forçadas a esconder sua fé ou a se converterem ao cristianismo para sobreviverem socialmente. A longo prazo, isso gera o epistemicídio (morte do conhecimento) de tradições orais, medicinais e filosóficas que os terreiros preservam há séculos.
Autores brasileiros
- Vagner Gonçalves
Autores estrangeiros
- José Casanova
