Submedicação analgésica
Prática de fornecer tratamento inadequado ou insuficiente para a dor a pacientes de determinados grupos raciais, especialmente negros, devido a vieses implícitos de profissionais de saúde e crenças errôneas sobre diferenças biológicas, resultando em menor alívio da dor e aprofundamento das desigualdades em saúde.
Definição
A submedicação analgésica (ou subtratamento da dor) refere-se ao fenômeno sistêmico onde pacientes negros recebem menos prescrições de analgésicos e sedativos do que pacientes brancos com queixas idênticas ou quadros clínicos semelhantes (como fraturas ósseas, parto ou pós-operatório). Esse viés não ocorre por falta de recursos, mas devido a crenças racistas pseudo-científicas herdadas do século XIX que ainda permeiam o a medicina, como a ideia falsa de que pessoas negras "têm pele mais grossa", "sentem menos dor" ou "viciam mais rápido" em opioides.
No Brasil, estudos de pesquisadoras em saúde coletiva como Emanuelle Goes denunciam como a "cor da dor" influencia o acolhimento no SUS. Internacionalmente, um estudo marcante de Kelly Hoffman (Universidade da Virgínia) em 2016 revelou que 50% dos estudantes de medicina e residentes brancos entrevistados acreditavam em pelo menos um mito biológico falso sobre diferenças raciais, como a ideia de que as terminações nervosas dos negros são menos sensíveis.
Como funciona
A dinâmica funciona por meio da desumanização biológica. O mecanismo opera quando o profissional de saúde, inconscientemente (ou conscientemente), avalia o sofrimento do paciente negro como exagerado, teatral ou resistente. Diante de um grito de dor, o médico tende a interpretar o de um paciente branco como sinal de urgência clínica, e o de um paciente negro como "mau comportamento" ou "drama". Isso resulta em dosagens menores de medicação, tempos de espera mais longos no pronto-socorro e procedimentos invasivos (como suturas de parto) realizados "a sangue frio".
O mecanismo utiliza também a criminalização do paciente. Em contextos onde o uso de drogas é estigmatizado, o pedido por alívio da dor feito por um homem negro é frequentemente interpretado como "busca por drogas" (drug-seeking behavior), levando o médico a negar o remédio por medo de alimentar um vício. Essa suspeita padrão não recai com a mesma frequência sobre pacientes brancos de classe média, cuja dor é validada imediatamente como legítima e digna de compaixão e intervenção farmacológica potente.
Exemplos
O parto "natural" forçado: A gestante negra que, mesmo pedindo analgesia, ouve da equipe que "na hora de fazer não gritou", sendo deixada para parir com dores extremas enquanto a paciente branca no leito ao lado recebe peridural.
A criança com fratura: Que recebe apenas dipirona (analgésico leve) para um braço quebrado, enquanto a criança branca recebe opioides (analgésico forte) para a mesma lesão.
O paciente com anemia falciforme: Que chega ao hospital em crise de dor e é tratado com desconfiança, deixado no corredor por horas, sob a suspeita de ser um viciado em busca de morfina.
A sutura pós-parto: Pontos dados na região genital sem anestesia local, sob a justificativa de que "é só um pontinho" e "você aguenta". Illinois.
Quem é afetado
A população negra em geral é a vítima primária, mas o recorte de gênero agrava a situação. Mulheres negras, especialmente durante o parto (violência obstétrica), são frequentemente submetidas a episiotomias sem anestesia ou ouvidas com descaso ao relatarem dores, o que leva a taxas mais altas de mortalidade materna. Crianças negras também são afetadas: estudos mostram que elas recebem menos analgésicos para apendicite do que crianças brancas, sugerindo que a desumanização começa na infância.
A sociedade médica é afetada pela perda de eficácia clínica e pela violação do juramento de Hipócrates ("primeiro, não causar dano"). A persistência desses vieses compromete a qualidade do atendimento e a confiança da população negra no sistema de saúde, levando muitos a adiar a busca por ajuda médica até que suas condições sejam críticas. Isso gera um custo social e econômico maior para o sistema público, que precisa lidar com complicações graves que poderiam ter sido evitadas com um tratamento humanizado e precoce.
Por que é invisível
A submedicação analgésica é invisibilizada pela autonomia médica e pela subjetividade da dor. Como a dor não pode ser medida objetivamente por um aparelho (diferente da febre ou pressão arterial), a avaliação depende inteiramente do julgamento do médico. Se o médico diz que "a dose prescrita é suficiente", é muito difícil para o paciente ou para a família contestar. A invisibilidade é mantida pelo corporativismo, que raramente pune profissionais por condutas discriminatórias sutis.
Além disso, a invisibilidade decorre da falta de letramento racial na formação médica. As faculdades de medicina ensinam fisiologia e patologia focadas no corpo branco padrão. Os livros didáticos mostram manchas de pele em corpos brancos, e os ensaios clínicos historicamente excluíram minorias. Sem discutir racismo em sala de aula, os novos médicos saem da faculdade acreditando que estão sendo neutros, quando na verdade estão reproduzindo vieses ancestrais. A invisibilidade só é rompida quando pesquisas estatísticas de larga escala mostram padrões inegáveis de disparidade no tratamento da dor.
Efeitos
- Sofrimento físico desnecessário: Pacientes suportando dores atrozes que poderiam ser aliviadas com medicamentos baratos e disponíveis.
- Trauma psicológico: O sentimento de abandono e humilhação ao ter sua dor desacreditada por quem deveria cuidar.
- Agravamento de quadros clínicos: A dor não tratada aumenta o estresse fisiológico, eleva a pressão arterial e prejudica a recuperação pós-cirúrgica.
- Mortalidade materna evitável: Mulheres negras morrendo por complicações (como hemorragias ou infecções) cujos sintomas iniciais (dor) foram ignorados pela equipe de enfermagem.
Autores brasileiros
- Emanuelle Goes
- Alexandre da Silva
- Jurema Werneck
Autores estrangeiros
- Kelly Hoffman
- Dorothy Roberts
