Falácia da ajuda
Percepção distorcida de que homens 'ajudam' em tarefas domésticas e cuidados, em vez de assumirem sua parte igual de responsabilidade, perpetuando a sobrecarga feminina.
Definição
A falácia da ajuda refere-se à percepção distorcida de que as tarefas domésticas e de cuidado, majoritariamente executadas por mulheres, são uma responsabilidade feminina "natural" e que qualquer participação masculina nesses atos configura uma "ajuda" generosa ou um favor, e não o cumprimento de uma obrigação compartilhada. Esse conceito evidencia como a socialização de gênero no Brasil ainda desonera o homem da responsabilidade pelo funcionamento do lar e pela gestão da vida familiar, tratando o trabalho reprodutivo como invisível ou de menor valor.
No Brasil, a psicóloga Valeska Zanello e a socióloga Heleieth Saffioti discutem como essa falácia fundamenta a dupla ou tripla jornada feminina. Ao nomear a colaboração masculina como "ajuda", reafirma-se implicitamente que a gestão e a execução do trabalho doméstico pertencem à esfera da mulher por destino biológico ou moral. Isso resulta em um esgotamento crônico das mulheres, que, mesmo inseridas no mercado de trabalho, continuam sendo as únicas detentoras da carga mental do gerenciamento da casa.
Como funciona
A falácia da ajuda funciona através da manutenção da mulher no papel de "gerente" e do homem no papel de "assistente". O homem que "ajuda" geralmente só realiza tarefas que lhe são solicitadas de maneira explícita ("pode lavar a louça?", "pode buscar as crianças?"), eximindo-se de pensar estrategicamente sobre as necessidades da casa — o que comprar no mercado, quando pagar as contas ou o acompanhamento escolar dos filhos. Essa dinâmica mantém a carga mental sobre os ombros femininos, mesmo quando há alguma divisão física das tarefas.
Nas relações sociais, essa falácia é reforçada pelo elogio público ao homem que faz o básico. Um pai que cuida de seus próprios filhos é frequentemente chamado de "superpai" ou "ajudante", enquanto para a mãe o mesmo comportamento é visto como nada mais que sua obrigação. Esse sistema de recompensa simbólica para o homem e exigência incondicional para a mulher gera uma sensação de injustiça e isolamento na parceira, que se vê sobrecarregada pelo trabalho invisível da rotina doméstica.
Exemplos
O "pai de final de semana": Um pai que leva os filhos ao parque no domingo e recebe elogios da família extensa, enquanto a mãe passou a semana toda cuidando da saúde, alimentação e escola dos mesmos filhos sem qualquer reconhecimento.
A lista de compras infinita: O parceiro que pergunta "o que eu preciso fazer?" em vez de observar que a geladeira está vazia e o lixo está transbordando, forçando a mulher a ser a encarregada de delegar tarefas.
Elogio ao básico: Amigos que elogiam um marido por ele "ajudar muito em casa" simplesmente porque ele lava a própria louça ou coloca a roupa na máquina de vez em quando.
O gestor que ignora a jornada dupla: Um chefe que exige disponibilidade total de uma funcionária, ignorando que, ao chegar em casa, ela terá uma segunda jornada de trabalho que o seu colega homem (que tem alguém para "ajudar") não possui.
Quem é afetado
As principais afetadas são as mulheres em relações heteroafetivas, de todas as classes sociais, embora o impacto seja agravado pela raça. Mulheres negras, que historicamente sustentaram o trabalho doméstico para outras famílias, enfrentam uma pressão ainda maior para manter o equilíbrio entre o trabalho remunerado e o cuidado familiar, muitas vezes sem qualquer rede de apoio ou parceria masculina real.
Os homens também são afetados de forma indireta, pois a falácia da ajuda os mantém em um estado de "infantilidade doméstica", privando-os da autonomia para cuidar de si mesmos e de seus entes queridos. No entanto, a balança do dano é claramente pendente para o lado feminino, resultando em altos índices de transtornos de ansiedade e depressão entre mulheres sobrecarregadas que sentem que "fazem tudo sozinhas", mesmo quando o parceiro afirma que "ajuda".
Por que é invisível
A falácia da ajuda é invisibilizada por séculos de tradição patriarcal que naturalizou o cuidado como "amor" ou "dom feminino". Quando o trabalho doméstico é romantizado, deixa de ser visto como trabalho e passa a ser visto como uma extensão da personalidade da mulher. Essa confusão entre afeto e serviço manual torna difícil para a mulher reclamar da sobrecarga sem ser rotulada como "ingrata", "reclamona" ou "pouco feminina".
Além disso, a linguagem cotidiana protege o privilégio masculino. Ao usar o verbo "ajudar", a sociedade retira o homem do centro da responsabilidade, tratando sua negligência como algo perdoável ou "normal de homem". A falta de valorização econômica do trabalho de cuidado no PIB nacional também contribui para que essa injustiça cotidiana seja tratada como um problema privado de cada casal, e não como uma questão estrutural de desigualdade de gênero que demanda políticas públicas de apoio.
Efeitos
- Carga mental exaustiva: A mulher nunca descansa, pois mesmo quando não está trabalhando fisicamente, está planejando e gerenciando as necessidades da família e da casa.
- Falta de lazer e tempo para si: Mulheres sacrificam seu tempo de estudo, descanso e cuidado pessoal para suprir as lacunas deixadas pela falta de corresponsabilidade masculina.
- Conflitos conjugais: A percepção de desequilíbrio na divisão das tarefas é uma das principais causas de divórcio e ressentimento crônico nas relações de longa duração.
- Perda de oportunidades profissionais: A sobrecarga doméstica impede que mulheres aceitem promoções, façam cursos noturnos ou invistam na carreira com a mesma liberdade que seus parceiros homens.
Autores brasileiros
- Valeska Zanello
Autores estrangeiros
- Arlie Hochschild
- Silvia Federici
