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Sanismo

Semelhante à psicofobia e ao capacitismo, é a discriminação sistemática que privilegia pessoas neurotípicas e "sãs", marginalizando qualquer comportamento ou processamento mental que fuja da norma psiquiátrica estabelecida. Atinge diretamente pessoas com transtornos mentais ou neurodivergentes, baseada em estereótipos de irracionalidade e periculosidade, resultando em exclusão social e violação de direitos.

Saúde mentalLuta antimanicomialCapacitismoEstigmaDireitos humanos

Definição

O sanismo (ou saneism) é a forma de opressão e preconceito sistêmico dirigida a pessoas com sofrimento psíquico, transtornos mentais ou neurodivergências. Trata-se da crença na superioridade da "sanidade" como a única forma válida de existir e perceber a realidade, tratando as experiências divergentes como automaticamente inválidas, perigosas ou inferiores. O sanismo opera de maneira similar ao racismo e ao sexismo, criando uma hierarquia onde indivíduos considerados "sãos" detêm a autoridade sobre o corpo, a mente e os direitos civis daqueles considerados "loucos".

No Brasil, o debate sobre o sanismo ganha contornos específicos através do pensamento de autores como Paulo Amarante e a herança da Luta Antimanicomial. A crítica sanista denuncia como a psiquiatrização excessiva e o modelo médico tradicional muitas vezes silenciam o sujeito em seu sofrimento, rotulando-o para justificar a exclusão social e a perda de autonomia, em vez de promover o cuidado e a integração em liberdade.

Como funciona

O sanismo funciona através da desqualificação intelectual e moral do indivíduo. Qualquer opinião, desejo ou queixa de uma pessoa diagnosticada com uma condição mental é frequentemente descartada como "sintoma da doença", removendo sua agência e credibilidade testemunhal. Essa dinâmica justifica práticas de controle que vão desde microagressões cotidianas — como falar com o adulto de forma infantilizada — até violências institucionais graves, como internações compulsórias desnecessárias e o uso abusivo de psicofármacos para o controle social.

Na esfera social, o sanismo manifesta-se no "medo do louco", uma construção cultural que associa o sofrimento psíquico à imprevisibilidade e ao perigo. Essa percepção é alimentada pela mídia e pela ficção, legitimando o afastamento dessas pessoas dos espaços de trabalho, lazer e decisão política, sob o pretexto de "proteção" da sociedade ou do próprio sujeito.

Exemplos

  • Infantilização na consulta: Um médico que fala apenas com o acompanhante de um adulto com diagnóstico psicossocial, ignorando a capacidade do paciente de relatar seus próprios sintomas.

  • Exclusão de convívio: Um grupo de colegas de trabalho que deixa de convidar um membro para almoçar após saber que ele faz uso de medicamentos controlados para depressão.

  • Legitimação de maus-tratos: A aceitação social de contenções físicas ou isolamentos em hospitais sob o argumento de que "é para o bem do paciente", sem considerar o trauma gerado.

  • Capacitismo mental no RH: Empresas que realizam testes de personalidade que visam filtrar e excluir candidatos que apresentem traços de ansiedade ou neurodivergência, independentemente de sua capacidade técnica.

Quem é afetado

As principais afetadas são as pessoas com transtornos mentais severos e persistentes, usuários de serviços de saúde mental e neurodivergentes. O impacto é agravado pela interseccionalidade: o sanismo atinge de forma muito mais violenta a população negra e pobre, que tem seus comportamentos mais rapidamente criminalizados e patologizados pelo sistema de justiça e saúde.

Também são afetados aqueles que, embora não tenham um diagnóstico formal, apresentam comportamentos que desafiam a norma da produtividade neoliberal, como pessoas com crises de ansiedade severa ou luto prolongado, que passam a ser vistas como "quebradas" ou disfuncionais para o mercado de trabalho.

Por que é invisível

O sanismo é invisibilizado porque está profundamente enraizado na confiança incondicional no saber médico e na busca pela "normalidade". Diferente de outras formas de preconceito, a discriminação sanista é muitas vezes apresentada como "benevolência" ou "cuidado médico", o que dificulta a percepção da violência envolvida. A sociedade aceita como natural que uma pessoa em crise perca seus direitos de escolha, sem questionar se existem formas de apoio que preservem sua autonomia.

A linguagem cotidiana também camufla o sanismo através de metáforas pejorativas. Usar termos como "esquizofrênico", "bipolar" ou "louco" para descrever situações caóticas ou pessoas ruins reforça o estigma, tornando a desvalia das condições mentais um elemento estruturante da comunicação sem que se perceba o dano causado àqueles que realmente vivem essas condições.

Efeitos

  • Morte social: O isolamento progressivo do indivíduo, que perde vínculos de amizade, familiares e profissionais devido ao estigma e à dificuldade de convivência em ambientes não acolhedores.
  • Autoestigma: A internalização do preconceito pela própria pessoa afetada, que passa a acreditar ser incapaz de ter uma vida plena, gerando um ciclo de desesperança e agravamento do sofrimento.
  • Barreiras no emprego: Dificuldade extrema de inserção ou manutenção no mercado de trabalho, onde a revelação de um diagnóstico mental frequentemente resulta em demissão ou bloqueio de promoções.
  • Injustiça epistêmica: O silenciamento crônico da voz do usuário de saúde mental em decisões sobre seu próprio tratamento e sobre as políticas públicas que afetam sua vida.

Autores brasileiros

  • Valeska Zanello

Autores estrangeiros

  • Michael Perlin
  • Morton Birnbaum
  • Judi Chamberlin

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